quarta-feira, 23 de maio de 2012

Justificação Pela Fé Muito Antes de Lutero


Não há doutrina mais importante para a teologia evangélica do que a doutrina da justificação pela fé somente – o princípio sola fide da Reforma. Martinho Lutero o definia como sendo o artigo que determinava se uma igreja estava de pé ou caindo.

    A história fornece provas concretas para confirmar a avaliação dele. As igrejas e denominações que se firmam em sola fide permanecem evangélicas. Aquelas dispostas a ceder nesse ponto inevitavelmente se rendem ao liberalismo, revertem ao sacerdotismo ou adotam formas até piores de apostasia. O evangelismo histórico, portanto, sempre encarou a justificação pela fé como sendo uma doutrina bíblica central – se não aquela doutrina mais importante a ser bem compreendida. Não foge à verdade definir os evangélicos como sendo os que crêem na justificação pela fé.

    A própria Bíblia coloca sola fide como a única alternativa a um sistema de justiça pelas obras que leva à maldição. “Ora, ao que trabalha o salário não é considerado como favor, e sim como dívida. Mas, ao que não é considerado como favor, e sim como dívida. Mas, ao que não trabalha porem crê naquele que justifica o ímpio, a sua fé lhe é atribuída como justiça” (Rm 4:4,5, ênfase acrescentada). A apostasia de Israel se baseava no seu abandono da justificação somente pela fé: “Desconhecendo a justiça de Deus e procurando estabelecer a sua própria, não se sujeitaram à que vem de Deus” (Rm 10:3). Em outras palavras, aqueles que confiam em Jesus Cristo para justificação pela fé somente recebem uma justiça perfeita que lhes é atribuída. Os que tentam estabelecer sua própria justiça ou misturam fé com obras só recebem o salário terrível que é devido a todos aqueles que não alcançam o alvo. Então o indivíduo, tanto como igreja, permanece ou cai segundo esse princípio de sola fide.

    A justificação bíblica precisa ser definida com empenho e sinceridade em duas frentes. Muitos hoje usam mal a doutrina com fim de apoiar a visão de que a obediência à lei moral de Deus é facultativa. Esse ensino procura reduzir toda a obra salvadora de Deus ao ato declarativo da justificação.

Põe em segundo plano o novo nascimento espiritual da regeneração (2 Co 5:17); despreza os efeitos morais do novo coração do crente (Ez 36:26-27); e torna a santificação dependente de esforços do próprio pecador. Tem a tendência de tratar dos elementos forenses da justificação – como se este fosse o único aspecto essencial da salvação. O efeito inevitável dessa abordagem é mudar a graça de Deus em libertinagem (Jd 4). Tal ótica é chamada de antinomianismo.

    Por outro lado, há muitos que fazem a justificação depender de uma mistura de fé e obras. Onde o antinomianismo isola a justificação da santificação radicalmente, este erro mistura os dois aspectos da obra salvífica de Deus. O efeito é fazer da justificação um processo firmado na justiça defeituosa do crente, em vez de um ato declarativo de Deus baseado na justiça perfeita de Cristo. Assim que a justificação é misturada com a santificação, as obras da justiça tornam-se parte essencial do processo. A fé conseqüentemente fica diluída com obras. Sola fide é abandonada. O erro dos legalistas gálatas (cf. Gl 2:16) foi esse. Paulo chamou isto de “outro evangelho” (Gl1: 6,9). E esse mesmo erro é encontrado em praticamente todas as seitas falsas. Também acha-se aqui toda a base da doutrina católico-romana da justificação.

    O evangelismo está sendo assaltado nos dias de hoje pelos dois erros. A controvérsia da “salvação do senhorio” revela a força do antinomianismo moderno.Ao mesmo tempo, na outra frente, há o esforço vigoroso pela união ecumênica com o catolicismo romano. Isso exigiria dos evangélicos um amolecimento de sua posição em sola fide e a Concessão do carimbo de aprovação para uma doutrina de justificação do tipo dos gálatas, combinando fé e obras. Essas tendências são especialmente alarmantes porque emanam de dentro do próprio movimento evangélico.

    E fora do evangelismo, a justificação pela fé somente está sendo atacada fortemente. Uma nova geração de apologistas católicos romanos armou-se contra a sola fide. De acordo com eles, a Bíblia não ensina essa doutrina – ela é invenção de Lutero e dos reformadores.

    Recentemente, ouvi uma apresentação gravada em fita por um padre católico que fazia essas reedificações. Sugeriu que Jesus dava pouca ou nenhuma atenção à doutrina da justificação em seu próprio ensino e evangelismo. Este homem, que freqüentemente entra em debate contra teólogos protestantes, diz que já desafiou todos eles para demonstrarem onde foi que Jesus ensinou que alguém pudesse ser justificado pela fé somente. Até agora, diz ele, não encontrou ninguém que aceitasse o desafio.

    Infelizmente, os evangélicos de hoje estão mal preparados para enfrentar tal desafio. Muitos vêem a Teologia como menos importante do que as grandes   questões   Morais do nosso tempo, quais sejam o aborto, a eutanásia, o homossexualismo e outros assuntos semelhantes. Misturados aos católicos romanos na arena política, muitos ativistas morais  vêem como contraproducente debater Teologia. Preferem deixar as diferenças doutrinárias entre Roma e os reformadores desaparecer gradualmente até a obscuridade.

No mínimo dispõem-se a tratar todas as diferenças doutrinárias como assuntos secundários. Essa mentalidade está pressuposta no documento intitulado “Evangélicos e Católicos Juntos”, que conclama os  evangélicos a Abraçarem  os católicos como verdadeiros irmãos e irmãs em Cristo.2

    Enquanto isso, a ignorância e a igênuadade teológica têm deixado muitos evangélicos incapazes de defender o que a Bíblia ensina. Nossa época é de pragmatismo, obcecada com o que funciona e menos preocupada com o que é verdadeiro. São pouquíssimos os que sabem como, ou mesmo que se dispõe a defender as verdades evangélicas contra visões que as contradizem. É muito mais fácil – e muito mais cortês, ao que parece – simplesmente não discutir. Portanto, os ataques contra doutrinas evangélicas cruciais muitas vezes nem são respondidos. A próxima geração estará colhendo o fruto venenoso dessa tendência.

    Se a doutrina como um todo é ignorada em nossos dias, a doutrina da justificação é negligenciada mais ainda. Obras sobre a justificação estão sensivelmente ausentes do corpo da literatura evangélica recente. Em sua introdução à reedição de 1961 da obra marcante de James Buchanan sobre o assunto, J.I. Packer observou isso:

É um fato de sentido ameaçador saber que o volume clássico de Buchanan, que já tem um século de existência, seja o mais recente estudo completo da justificação pela fé que o protestantismo de fala inglesa (para não procurar mais longe) tenha produzida, nunca houve uma época de atividade teológica tão febril quanto a dos últimos cem anos; contudo, em meio a todos os múltiplos interesses teológicos, o século não produziu um único livro de qualquer tamanho sobre doutrina da justificação. Se tudo que conhecêssemos da igreja durante o século passado tivesse sido que ela negligenciou o assunto da justificação desse modo, já estaríamos aptos a concluir que a época tem sido de apostasia e declínio religioso.3

     Não existe doutrina mais importante para ser definida do que o ensino bíblico de que os crentes justificados pela fé somente. Sola fide é uma verdade que precisamos conservar bem visível se vamos seguir uma rota segura entre os males gêmeos do antinomianismo, por um lado, e da justiça-pelas-obras do outro. O apóstolo Paulo a considerava tão importante que pronunciou uma maldição solene de condenação eterna contra qualquer pessoa que corrompesse o evangelho nesse ponto (Gl 1:9). Não é de admirar que na Reforma tantos tenham dado sua vida em defesa dessa doutrina.

    Na verdade, a justificação foi a doutrina que acendeu a Reforma. A teologia católica havia negligenciado o assunto por séculos. Roma estava despreparada para responder ao desafio doutrinário dos primeiros reformadores. Por isso, a resposta inicial da Igreja foi desviar o debate para a questão das reformas morais e eclesiásticas. Martinho Lutero ficou frustrado pela relutância de Roma em falar sobre doutrina, especialmente sobre a justificação pela fé. Ele até declarou que teria prazer em ceder ao papa em matérias eclesiásticas se o papa abraçasse o verdadeiro evangelho.4  Lutero entendeu que todas as ofensas morais e eclesiásticas toleradas pela Igreja foram em última instância resultado do obscurecimento da justificação somente pela fé teria automaticamente posto fim à venda de indulgências e outros abusos do poder eclesiásticos.

    Portanto, quando a pregação dos reformadores sobre a justificação pela fé começou a despertar as massas para a verdade da Bíblia, foi inevitável que a Igreja Católica Romana respondesse.

O EVANGELHO SEGUNDO ROMA

    A Igreja finalmente expôs seus pontos de vista sobre a justificação em meados do século XVI no concílio visava especificamente colocar a doutrina católica em forte contraste às idéias protestantes. No tratamento dado à justificação, mais do que em qualquer outro ponto, a divergência entre Roma e os reformadores é bem acentuada.

    Os Cânones e Decretos de Trento não são meramente a opinião arcaica de alguns bispos medievais. Representam a posição oficial da Igreja até o dia de hoje. Todos os concílios católicos subseqüentes têm reafirmado de maneira uniforme pronunciamentos de Trento. Na verdade, o Segundo Concílio Vaticano dos anos 60 declarou serem essas doutrinas “irreformáveis”5. Ordena-se a todos os católicos fiéis que as recebam como verdade infalível. Portanto, para entender a doutrina católico-romana da justificação, precisamos retornar ao Concílio de Trento.

    Trento não negou abertamente que os crentes sejam salvos pela divina graça. Para dizer a verdade, o Concílio declara especificamente que “Deus justifica os pecadores pela sua graça por meio da redenção que está em Jesus Cristo” 6. Isso, é claro, é um eco de Romanos 3:24. Mas a escritura vai um passo além do que Trento estava disposto a ir. Romanos 11:6 diz “E, se é pela graça, já não é pelas obras; do contrário, a graça já não é graça” (ênfase acrescentada). Trento assumiu uma posição que fazia com que as obras fossem parte essencial da justificação. Fazendo assim, ficaram só com uma graça que “já não é graça”. Portanto, embora Trento começasse com uma afirmação da graça divina, a doutrina da justificação que descreveu realmente é já “um outro evangelho” que corrompe a graça de Deus. 

Um Processo Dependente do Crente,
Não um Ato Judicial de Deus

      O conselho viu a justificação como um processo pelo qual o pecador é realmente tornado justo. Em outras palavras, Trento dizia que a justificação compreende todo o processo de santificação. Segundo o Concílio, a justificação é “não meramente a remissão de pecados, mas também a santificação e renovação do homem interior, pela recepção voluntária da graça e dos dons pelos quais um homem injusto se torna justo.” 7

     Além disso, segundo o Concílio, a justificação é um processo que dura a vida toda. 8

Na verdade, o processo se estende além dessa vida e entra em outra. O purgatório é necessário para apagar a dívida toda do castigo eterno:

Se  alguém  diz  que  a culpa  é perdoada  a todo  pecador  penitente  depois de  ter sido recebida a graça da justificação, e  que  a dívida  do castigo  eterno  é de tal maneira apagada que não fica nenhuma  dívida de  castigo temporal  para  ser descontada, seja  neste  mundo, seja no próximo ou no Purgatório, antes que a entrada ao reino dos céus possa ser aberta – que seja ele anátema.9

     Não há garantia alguma de que alguém há de perseverar no processo, 10 e alguns poderão cair pelo caminho e ser perdidos para sempre. Mas “aqueles que, pelo pecado, tiverem caído da graça da justificação recebida poderão ser novamente justificados... pelo sacramento da penitência”.11

     Em outras palavras, as boas obras são necessárias para preservar a justificação, e quando crentes pecam, precisam ganhar de novo sua justificação por meio de um ritual religioso. Isso é uma negação inconfundível da sola fide.

A Fe Mais as Obras, Não a Fé Somente

    Ao mesmo tempo em que prestava falso culto a importância da fé na justificação, Trento declarava que a causa instrumental da justificação (o meio pelo qual é obtida) não é a fé, e sim “o sacramento do batismo”. 12

    E dentro desse mesmo raciocínio, o Concílio determinou: “Se alguém disser que a justiça recebida não é preservada e que também não é aumentada perante Deus por boas obras, mas que essas obras são apenas frutos e sinais da justificação obtida, e não a causa desse aumento, que seja ele anátema”.13  Em outras  palavras, as obras são necessárias para se obter, preservar e aumentar a justificação. Se obras não forem acrescida à fé, a justificação não atinge seu alvo.

    Até mesmo a graça é conferida por meio de obras no sistema católico-romano: Se alguém disser que pelos ditos sacramentos. a graça não é conferida por meio da obra executada, e [disser] que a fé nas promessas divinas sozinha é suficiente para a obtenção da graça, que seja ele anátema. 14

    O Concílio emitiu ainda um repúdio à sola fide: “Se qualquer pessoa disser que pela fé somente o pecador é justificado, com o sentido de que nada mais seja requerido para cooperar a fim de obter a graça da justificação... que seja ele anátema”.15 Em  outras palavras, Trento decretou que qualquer pessoa que afirme ser justificado com base na fé sozinha sem as obras, será condenada à maldição eterna.

A Graça Infundida, e não a Justiça Imputada

    Como se notou anteriormente, quando a justificação é misturada com a santificação, a base para a justificação torna-se a justiça imperfeita do próprio pecador, em vez da justiça perfeita de Cristo. Trento reconhecida isso de modo explícito:

           Se alguém disser que os homens são justificados seja pela imputação da justiça de Cristo somente, seja pela remissão de pecados somente, para exclusão da graça e  amor  que é derramado em seus corações pelo Espírito Santo e que é inerente  neles; ou mesmo  que a graça pela qual somos justificados é somente o favor de Deus – que seja anátema. 16

    Aqui o Concílio estava claramente contradizendo o ensino da Reforma, que a justiça perfeita de Cristo, atribuída como crédito na conta do pecador, é a base mediante a qual nós somos aceitos diante de Deus. Em lugar disso, o Concílio  declarou que a graça é infundida no coração do crente, resultado numa justiça que é inerente (a justiça do próprio crente). Essa justiça inerente – que precisa ser aperfeiçoada pela santificação e no purgatório – oferece a base para que sejamos aceitos diante de Deus.

Um Outro Evangelho, e Não a Mensagem Bíblica

    A Escritura não ensina nada disso. Na verdade, a doutrina católica da justificação é precisamente o que Paulo condenou como sendo “um outro evangelho”. De acordo com a Bíblia, Deus “atribui justiça, independentemente de obras” (Rm 4:4-6). Paulo considerava todas as outras coisas como lixo e refugo por amor a uma doutrina correta da justificação: “para conseguir Cristo e ser achado nele, não tendo justiça própria que procede de lei, senão a que é mediante a fé em Cristo, a justiça que procede de Deus mediante a fé” (Fp 3:8,9 ênfase acrescentada). Isso é um repúdio claro da própria doutrina ensinada pelo Concílio de Trento!

    A Bíblia também ensina que a justificação é um ato declarativo de Deus, e não um processo. Jesus prometeu salvação imediata aos crentes: “quem ouve a minha palavra e crê naquele que me enviou tem a vida eterna, não entra em juízo, mas passou da morte para a vida” (Jo 5:24). Esse versículo afirma claramente que na base da fé somente, os pecadores passam da morte para a vida eterna. A santificação é resultado, não pré-requisito; e o purgatório sequer é mencionado na Escritura. “De fato, onde quer que a Bíblia fale da justificação dos crentes, sempre fala de um evento no pretérito que ocorreu no momento da fé: [tendo sido] Justificados, pois mediante a fé, temos paz com Deus por meio de nosso Senhor Jesus Cristo” (Rm 5:1, ênfase acrescentada). “Como agora fomos justificados pelo seu sangue, muito mais ainda seremos salvos da ira de Deus por meio dele!” (Rm 5:9 NVI, ênfase acrescentada). “Agora, pois, já nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus” (Rm 8:1, ênfase acrescentada). Nossa justificação é um ato realizado, não pela fé mais obras: “Porque pela graça sois salvos, mediante a fé, e isto não vem de vós; é dom de Deus; não de obras, para que ninguém se glorie” (Ef 2:8,9 ênfase acrescentada).

     A justificação pela fé somente é e sempre foi único caminho da salvação:

         “Pois que diz a Escritura [do antigo Testamento]? Abraão creu em Deus, e isso lhe foi imputado para justiça. Ora, ao que trabalha o salário não é considerado como favor, e sim como dívida. Mas,ao que trabalha, porém crê naquele que justifica o ímpio, a sua fé lhe é atribuída como Justiça. E é  assim  também  que  Davi  declara  ser bem-aventurado  o  homem  a quem Deus atribui justiça, Independentemente de obras” (Rm 4:3-6, ênfase acrescentada).  

     O que devemos fazer para sermos salvos? A Bíblia responde a essa pergunta nos termos mais claros possíveis: “Crê no Senhor Jesus e serás salvo” (At 16:31). As obras não fazem parte nenhuma de nossa justificação. A única que pode tornar qualquer pecador aceitável a Deus é o mérito imputado do Senhor Jesus Cristo.

O EVANGELHO DE ACORDO COM JESUS

    Voltemos ao desafio do padre católico romano. É certo que se a justificação pela fé somente é uma doutrina tão crucial, seria de se esperar que a encontrássemos ensinada de maneira clara pelo nosso Senhor. De fato, é precisamente isso que descobrimos.

    Embora Cristo não tenha dado nenhuma explicação formal da doutrina da justificação (como fez Paulo em sua epístola aos romanos), a justificação pela fé fundamentava e permeava toda sua pregação do evangelho. Embora Jesus nunca tenha discursado sobre o assunto, é fácil demonstrar a partir do ministério evangélico de Jesus que ele ensinava a sola fide.

    Por exemplo, foi o próprio Jesus quem declarou: “quem ouve a minha palavra e crê... passou da morte para a vida” (Jo 5:24)– sem passar por qualquer sacramento ou ritual,e sem qualquer Período de espera ou purgatório.

O ladrão na cruz é o exemplo clássico. Mediante a prova de sua tão pequenina fé, Jesus lhe disse: “Em verdade te digo que hoje estarás comigo no paraíso” (Lc 23:43). Não foi exigido nenhum sacramento, nenhuma obra, para que ele obtivesse a justificação.

    E mais ainda, as muitas curas que Jesus realizou foram evidência física de seu poder de perdoar pecados (Mt 9:5,6). Quando curava, ele com freqüência dizia: “ a tua fé te salvou” (Mt 9:22; Mc 5:34; 10:52; Lc 8:48; 17:19; 18:42). Todas essas curas foram lições concretas sobre a doutrina da justificação pela fé somente.

   Mas a ocasião única em que Jesus realmente declarou alguém “justificado” oferece o melhor vislumbre para se entender à doutrina conforme ele ensinou:

  “E disse-lhe Jesus: Hoje veio a salvação a esta casa, pois também este é filho de Abraão. Porque o Filho do homem veio buscar e salvar o que se havia perdido. E, ouvindo eles estas coisas, ele prosseguiu, e contou uma parábola; porquanto estava perto de Jerusalém, e cuidavam que logo se havia de manifestar o reino de Deus. Disse pois: Certo homem nobre partiu para uma terra remota, a fim de tomar para si um reino e voltar depois. E, chamando dez servos seus, deu-lhes dez minas, e disse-lhes: Negociai até que eu venha.Mas os seus concidadãos odiavam-no, e mandaram após ele embaixadores, dizendo: Não queremos que este reine sobre nós.” (Lc 18:9-14).

     Essa parábola certamente chocou os ouvintes de Jesus! Eles “confiavam em si mesmos, por ser considerados justos” (v.9) – a definição exata de farisaísmo. Seus heróis teológicos eram os fariseus, que se atinham aos mais rigorosos padrões legalistas. Jejuavam, exibiam suas orações e doações de esmolas, faziam muitos mais do que era exigido quando da aplicação das leis cerimoniais que Moisés tinha realmente prescrito.“Quanto à justiça que há na lei”, consideravam-se “irrepreensíveis” (cf. Fp 3:5,6). Contudo, Jesus tinha deixado multidões pasmas quando disse: “se a vossa justiça não exceder em muito a dos escribas e fariseus.

    Em seguida pasmou ainda mais os ouvintes com uma parábola que parecia colocar um cobrador de impostos detestável em melhor posição quanto à espiritualidade do que um fariseu que orava.

    A lição de Jesus é clara. Estava ensinando que a justificação é pela fé somente. Toda a teologia da justificação está ali contida. Mas sem entrar em teologia abstrata, Jesus nos pintou o quadro com uma parábola.

Um Ato Judicial de Deus

         A justificação do cobrador de impostos foi uma realidade que aconteceu no mesmo instante. Não houve processo, intervalo de tempo, nem medo do purgatório.

    Ele “desceu justificado para sua casa” (Lc 18:14) – não por causa de qualquer coisa que tivesse feito, mas por causa daquilo que fora feito a seu favor. Observe que o cobrador de impostos compreendia sua própria falta de capacidade. Ele tinha uma dívida impossível e sabia que não tinha meios de paga-lá. Tudo que podia fazer era se arrepender e rogar por misericórdia. Compare sua oração com a do fariseu arrogante. Que contraste! Ele não recitou o que havia feito. Sabia que mesmo suas melhores obras eram pecado. Não ofereceu fazer nada por Deus. Simplesmente rogou pela misericórdia divina. Estava buscando que Deus fizesse por ele aquilo que ele próprio não podia fazer. Essa é a natureza da penitência que Jesus pedia.

Pela Fé Somente

    Além disso, homem saiu justificado sem fazer nenhum ato de penitência, sem passar por qualquer sacramento ou ritual, sem realizar uma só obra meritória que fosse. Sua justificação estava completa sem qualquer uma dessas coisas porque aconteceu só com base na fé. Tudo que era necessário para expiar seu pecado e lhe dar perdão já fora feito por ele. Estava justificado pela fé naquele momento.

    Repetindo, ele se contrasta totalmente com o fariseu presunçoso, tão certo de que todos seus jejuns e dízimos e outras obras o tornavam aceitável para Deus. Mas enquanto o operoso fariseu continuava não-justificado, o coletor de impostos crentes recebia plena justificação pela fé somente.

Uma Justiça Imputada

    Você se lembra da declaração de Jesus no Sermão do Monte: “se a vossa justiça não exceder em muito a dos escribas e fariseus, jamais entrareis no reino dos céus” (Mt 5:20)? Contudo aqui ele afirma que esse cobrador de impostos – o mais ímpio dos homens – estava justificado! Como um pecador desse pôde obter uma justiça que excedia a do fariseu? A única resposta possível é que recebeu uma justiça que não era dele próprio (cf. Fp 3:9). A justiça lhe foi atribuída mediante a fé (Rm 4:9-11).

    De quem era a justiça que foi atribuída a ele? Só podia ser a justiça perfeita de um Substituto sem defeito, que por sua vez devia suportar os pecados do cobrador de impostos e sofrer a penalidade da ira de Deus em lugar dele.

    O cobrador de impostos ficou justificado. Deus o declarou justo, atribuindo-lhe a plena e perfeita justiça de Cristo, perdoando-o de toda injustiça, e livrando-o de toda condenação. Depois disso ele se apresentou diante de Deus para sempre na posição de perfeita justiça que tinha sido computada a seu favor.

    Esse é o sentido da justificação. É o único evangelho verdadeiro. Todos os outros pontos da teologia emanam desse. Como escreveu Packer: “A doutrina da justificação pela fé é como Atlas: suporta um mundo em seus ombros, o conhecimento evangélico completo da graça salvadora”. 17 Adiferença entre Roma e os reformadores não está em temas sobre minuciosidade teológicas. Um entendimento correto sobre a justificação pela fé constitui o fundamento do evangelho. Não é possível errar nesse ponto sem corromper junto todas as outras doutrinas. E é bem por isso que todo “outro evangelho” está sob a maldição eterna de Deus.

    Realmente, não se pode dizer que Lutero tenha inventado a idéia da justificação pela fé somente. Muitos anos antes de Lutero ela foi ensinada por Santo Agostinho, por Paulo, por Jesus e por Moises. Mesmo remontando ao Jardim do Éden, Adão e Eva perceberam logo após seu pecado que as folhas de figueira com que tentaram cobrir a vergonha do que fizeram eram deploravelmente inadequadas. O evangelho é dado em Gênesis 3:21  quando Moises nos diz que Deus os vestiu. Precisavam de algo que não podiam providenciar por si próprios; é Deus dando ao homem aquilo de que carecia para se posicionar na presença favorável dele – esta é a essência do evangelho. Lutero só reafirmou o que os cristãos já compreendem há séculos, que a justificação é pela fé somente.


Notas:


[1] Tenho confrontado esse erro em dois livros distintos: The Gospel According to Jesus [O evangelho segundo Jesus] (Grand Rapids: Zondervan, 1988, 1994); Faith Works: The Gospel According to the Apostles [A Fé Funciona: O Evangelho Segundo os Apóstolos] (Dallas: Word, 1993).
[2] Discuti este documento em detalhe em Reckless Faith [Fé Irresponsável] (Wheaton, II.: Crosway, 1994), PP. 119-53.
[3] James I. Packer em James Buchanan, The Doctrine of Justification [A Doutrina da Justificação] (Edimburgo: Barner of Truth, 1961), p. 2.
[4] Martinho Lutero, Table Talk, em Helmut T. Lehman,(org.), Luter’s Works, 55 vols. (Filadélfia, Fortress, 1967), Theodore G. Tappert, trad. 54:185.
[5] Lumen Gentium, p. 25, em Walter M. Abbot, S.J., (org.), The Documents of Vatican II [Os Documentos do Vaticano II] (Nova York: America Press, 1966).
[6] Cânones e Decretos do Concílio de Trento, seção 6, cap. 6.
[7] Trento, seção 6, cap. 7 (ênfase acrescentada).
[8] Trento, seção 6, cap. 10.
[9] Trento, seção 6, cap. 30.
[10] Trento, seção 6, cap. 13.
[11] Trento, seção 6, cap.14.
[12] Trento, seção 6, cap. 7.
[13] Trento, seção 6, cap.24.
[14] Trento, seção 7, cânone 8 (ênfase acrescentada).
[15] Trento, seção 6, cânone 9 (ênfase acrescentada).
[16] Trento, seção 6, cânone 11.
[17] Packer, em Buchanan, p. 2.


 John F. Macarthur, Jr.


Fonte: Justificação Pela Fé Somente, Capítulo 1, autores John MacArthur, Jr., R. C. Sproul, Joel Beeke, John Gerstner e John Armstrong, Ed.CEP

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